quinta-feira, 2 de setembro de 2010
LETRAMENTO DIGITAL E ENSINO
Trecho do artigo Antonio Carlos dos Santos Xavier (UFPE)1
O surgimento das novas tecnologias de comunicação tem modificado muitas atividades da vida moderna. Tais modificações também têm atingido o processo de ensino/aprendizagem, levando estudiosos da educação e da linguagem a refletirem e a pesquisarem sobre as
conseqüências dessas novas práticas sociais e uso da linguagem na sociedade.
O crescente aumento na utilização das novas ferramentas tecnológicas (computador,Internet, cartão magnético, caixa eletrônico etc.) na vida social tem exigido dos cidadãos a
aprendizagem de comportamentos e raciocínios específicos. Por essa razão, alguns estudiosos começam a falar no surgimento de um novo tipo, paradigma ou modalidade de letramento, que têm chamado de letramento digital. Esse novo letramento, segundo eles, considera a necessidade do indivíduos dominarem um conjunto de informações e habilidades mentais que devem ser trabalhadas com urgência pelas instituições de ensino, a fim de capacitar o mais rápido possível os alunos a viverem como verdadeiros cidadãos neste novo milênio cada vez
mais cercado por máquinas eletrônicas e digitais. Este artigo procura refletir sobre o mais recente desafio pedagógico que se coloca para educadores e lingüistas: letrar digitalmente uma nova geração de aprendizes, crianças e adolescentes que estão crescendo e vivenciando os avanços das tecnologias de informação e
comunicação.
1. A Escrita e o Letramento digital
Nas sociedades em que prevalecem a modalidade escrita da língua, as instituições escolares vêm desenvolvendo um papel fundamental no processo de alfabetização e letramento dos alunos. Aliás, essas parecem ser as duas prioridades da escola: alfabetizar e letrar pessoas.
Sem dúvida, a escola, com o auxílio dos meios de comunicação tradicionais (rádio, TV, jornais, revistas etc.) e agora modernos (Internet, CD, CD-Rom, DVD), ajuda a consolidar a cultura da escrita. A escola, então, seleciona os conteúdos a serem apreendidos, organiza-os em programas e níveis de aprendizagem, estabelecem estratégias de como devem proceder aqueles que ensinam e o que devem responder aqueles que supostamente aprendem, pois, ao final das contas, é a mesma instituição escolar que premia ou pune seus tutelados através de formas de avaliação também criadas por ela.
Sendo assim, a aquisição do letramento alfabético torna-se indispensável àqueles que querem viver bem nas sociedades que super valorizam a escrita, pois eles terão suas formas de vida até certo ponto condicionadas pelo rótulo (competente ou inábil) que receberem das instituições de ensino, conforme o nível de aprendizagem que demonstrarem ter obtido ao longo de sua vida escolar.
Antes de continuarmos a discussão, é preciso retomar uma questão já discutida em um outro lugar neste livro a fim de esclarecer uma questão importante: qual seria a diferença entre um indivíduo que é apenas alfabetizado de um outro indivíduo que é alfabetizado e também letrado?
De acordo com as pesquisas brasileiras ainda em curso na Lingüística (KLEIMAN,1995) e na Educação (SOARES, 1998), alfabetizado seria aquele sujeito que adquiriu a tecnologia de escrita, sabe decodificar os sinais gráficos do seu idioma, mas ainda não se apropriou completamente das habilidades de leitura e de escrita, isto é, aquele indivíduo que, mesmo tendo passado pela escola, ainda lê com dificuldade, de modo muito superficial e escreve com pouca freqüência e, quando escreve, produz textos considerados simples (bilhetes, listas de compras, preenchimento de proposta de emprego e coisas do gênero).
1 Doutor em Lingüística e professor na UFPE. tonix@uol.com.br. É organizador dos livros Conversas
com lingüistas: virtudes e controvérsias da Lingüística (Parábola Editorial)e Hipertexto e gêneros
digitais: novas formas de construção de sentido (Editora Lucerna).
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